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sábado, 4 de abril de 2009

o tempo

No diálogo com um homem do futuro sem nome, Eudoro Acevedo, personagem de Borges, assim fala de seu tempo:

“No meu curioso ontem, prevalecia a superstição de que entre cada tarde e cada manhã acontecem fatos que é uma vergonha ignorar. O planeta estava povoado de espectros coletivos, o Canadá. o Brasil, o Congo Suíço e o Mercado Comum. Quase ninguém conhecia a história prévia daqueles entes platônicos, mas, sim, os mais ínfimos pormenores do último congresso de pedagogos, a iminente ruptura de relações e as mensagens que os presidentes mandavam, elaboradas pelo secretário do secretário com a prudente imprecisão que era própria do gênero. (...) No ontem que me tocou, as pessoas eram ingênuas; acreditavam que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e repetia o seu próprio fabricante. Também eram freqüentes os roubos, embora ninguém ignorasse que a posse de dinheiro não dá maior felicidade nem maior tranqüilidade.” (Borges, Jorge Luis “A utopia de um homem que está cansado in: O Livro de Areia)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

os imortais

"Doutrinada num exercício de séculos, a república dos homens imortais atingira a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que em um prazo infinito ocorrem a todo homem todas as coisas. Por suas passadas ou futuras virtudes, todo homem é credor de toda bondade, mas também de toda traição, por suas infâmias do passado ou futuro."

terça-feira, 6 de março de 2007

existência enquanto sonho de outrem

"Numa alvorada sem pássaros, o mago viu cingir-se contra os muros o incêndio concêntrico. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas depois compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-lo de seus trabalhos. Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram e inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando." (Borges, Jorge Luis. As ruínas circulares in Ficções)

É , eu sei. A realidade é dura. O que se vai fazer? Ainda acredito que as relativizações podem ser importantes...

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

"del rigor en la ciencia" de Borges ou de como a vida não tem tradução

"En aquel Imperio, el arte de la Cartografía alcanzó tal Perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa del Imperio toda una Provincia. Con el tiempo, esos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaron un Mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él. Menos Adictas al Estudio de la Cartografía, las Generaciones Siguientes entendieron que ese dilatado Mapa era Inútil y no sin Impiedad lo entregaron a las inclemencias del Sol y de los Inviernos. En los desiertos del Oeste perduran despedazadas Ruinas del Mapa, habitadas por Animales y por Mendigos; en todo el País no hay otra reliquia de las Disciplinas Geográficas.”SUÁREZ MIRANDA: Viajes de varones prudentes, Libro Cuarto, cap. XLV, Lérida,1658.”

sábado, 13 de janeiro de 2007

sobre Borges (10/09/2006)

Tenho lido muito (e com prazer) o escritor argentino Jorge Luis Borges.Leio Borges e seus contos com a mesma atenção com que vejo as coisas mais sérias da vida. Lê-lo é um ato de seriedade: não se permite um só deslize ou desatenção do leitor. Penso que o autor argentino alcançou o mais prodigioso dos objetivos de um escritor: alcançar com suas palavras (seu mundo particular) os mais variados mundos pertencentes aos seus inúmeros leitores. Reflito a respeito disso porque, no meu caso, sempre que leio um de seus contos, vejo neles impressas algumas reflexões que já empreendi durante minha andança pelo mundo. Permita-me o leitor dar dois exemplos apenas: no conto “O Sul”, Borges faz uma comparação (sem revelar) da distância entre o homem ocidental-moderno que pauta sua vida pelo intenso caminhar da história e os homens que vivem sua vida desconectados desse tipo de convenção. Depois (antes no texto), realiza exercício semelhante em relação a um gato com o qual o personagem Juan Dahlmann encontra-se num café para o qual se dirige: “porque o homem vive no tempo, na sucessão, e o mágico animal, na atualidade, na eternidade do instante.” ( Ficções, pp. 188)Não são raros os momentos em que me vejo diante de figuras humanas (ou não) e sou levado a refletir sobre tal questão. Ora, apesar de compartilhamos por instantes o mesmo mundo sensível, a mesma realidade, tenho clareza da não intersecção entre meu tempo e dessas figuras, seja de um casal de imensos filas brasileiros na subida de uma das montanhas da serra friburguense, seja de misteriosos personagens que avisto durante minhas caminhadas noturnas. São vivos? Têm corpos? Pensam? Tenho medo de perguntar... Um outro exemplo se dá com a leitura de dois contos: “Funes, o memorioso” e “Del rigor em la ciência”. Certamente, aprende-se mais sobre ciência e especificamente sobre antropologia (parte do campo científico em que jogo) lendo tais contos do que assistindo alguns de meus colegas antropólogos falarem por horas a fio para suas platéias de alunos ávidos pelo saber. O que de mais fundamental deve se falar sobre etnografia (ou melhor, sobre o risco do etnografismo) senão “no abarrotado mundo de Funes não havia senão pormenores, quase imediatos”, comentário que o narrador do conto faz sobre a incansável (e terrível) tarefa de Funes de se esmerar em descrever a vastidão de todo o mundo. Ou como nesse trecho: “Duas ou três vezes havia reconstruído um dia inteiro; nunca havia duvidado, porém cada reconstrução já tinha requerido um dia inteiro.” (Ficções, pp 125)Ou como na lição dada em “Del rigor em la ciência”, em que um pais na ânsia pelo registro, termina construindo novas cidades para retratar as originais. A mensagem é que evidentemente não se pode fazer uma representação do real na exata medida do real. Seria como construir uma nova realidade. E no conto até se consegue dar fim à atividade, mas quando se consegue, a realidade já se transformou mais uma vez. Ora, tarefa fadada ao eterno insucesso. Por isso, o etnógrafo deve se esforçar por ter como alvo (e assim definir o mais rapidamente possível) uma das dimensões da realidade para não cair no erro de Funes ou dos que pretendem registrar o mundo em termos absolutos.