quarta-feira, 18 de abril de 2007

e o jornal fechou!

O último artigo que eu postei aqui foi publicado no jornal O Estado do Amazonas.
E o jornal fechou! Parece que foi vendido para outro grupo: deve reabrir com um novo nome e outra linha editorial, fenômeno que é cada vez mais comum entre os meios de comunicação brasileiros.
Mas a tendência é que surja um novo espaço de publicação lá em Manaus.
E é bom ter um lugar para publicar pequenos textos, e participar um pouco da realidade manauara.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

À rua!

"Quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua; não a norma já aceita, não as coisas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta do tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina."

O trecho acima é de um conto de Cortázar "Manual de instruções". Pode ser encontrado numa boa coletânea de contos "Os 100 melhores contos de humor da literatura universal" organizado por Flávio Moreira da Costa

segunda-feira, 2 de abril de 2007

A Amazônia e o aquecimento global

O pequeno texto é fruto de uma preocupação minha a respeito da Amazônia, entendida no contexto do combate ao aquecimento global. Minha preocupação é que os amazônidas apresentem ao mundo soluções no trato com a floresta, e não o inverso.
Assim como movimentos políticos carecem de legitimidade quando não tem base, também soluções pros problemas locais e do mundo devem partir das realidades comunitárias.
Quem, melhor que um caboclo da terra, pode falar melhor do rio Madeira, por exemplo? Essa é a perspectiva que busco exaltar!




A Amazônia e o aquecimento global


Nos últimos tempos, assiste-se a consolidação da discussão a respeito dos problemas ambientais globais. A minha intenção é a de apontar ao leitor o quanto do reconhecimento dos variados processos de degradação ambiental é um fenômeno de cunho político. Evidentemente, tal fenômeno também carrega reverberações do ponto de vista econômico.
Entre os elementos elencados pelos principais atores políticos enquanto vetores no debate sobre a degradação ambiental, está o aquecimento global. É o problema do aquecimento global o que mais chama a atenção entre os estudiosos da questão ambiental e executores de políticas públicas.
Ora, e no que consiste o aquecimento global? Trata-se da progressiva impossibilidade da natureza em absorver a grande (e cada vez maior) quantidade de emissão de dióxido de carbono na atmosfera. Tal substância, aliada a outros elementos químicos, impede a saída de parte dos raios solares da atmosfera. Isso ocasiona o aumento da temperatura do planeta. Isso é fato comprovado cientificamente!
O que se discute são os efeitos e conseqüências do aumento da temperatura ao redor da Terra. E é nessa discussão eminentemente política que quero entrar, especialmente pelo fato de ser o desmatamento da Amazônia, através das grandes queimadas, apontado como um dos principais pólos de emissão de dióxido de carbono. O Brasil, muito em virtude de tais queimadas na floresta, tem sido apontado como o quarto maior poluidor da atmosfera da Terra.
Essa afirmação, embora verdadeira, é capciosa. O Brasil é o quarto maior poluidor da atmosfera em termos absolutos. Não deixa de chamar atenção, entretanto, o fato de outros países serem mais industrializados do que o nosso e estarem atrás nesse triste ranking. Acontece que outras regiões do mundo contribuíram historicamente e contribuem muito mais que o Brasil, em termos relativos. Assim, é possível prever que se existisse um índice para apontar a contribuição por indivíduo para o aquecimento global, o Brasil estaria muito atrás da Holanda ou da Bélgica, pequenos países.
Não quero apresentar a idéia que o Brasil e a Amazônia não devam impor limites ao desmatamento e à emissão de dióxido de carbono de suas indústrias. Acontece, entretanto, que devemos estar alertas a esse jogo político das grandes potências que tentam imputar a todos os países do mundo a mesma responsabilidade que a sua para o combate às mazelas ambientais.
Os Estados Unidos da América, por exemplo, até hoje se recusam a serem signatários do Protocolo de Kyoto, acordo internacional que reúne perspectivas de combate ao aquecimento da Terra. Não se pode deixar de citar a importância de iniciativas como a da União Européia que propôs uma redução de 20% dos níveis de poluição de suas indústrias de 1990, de forma unilateral.
Surge a possibilidade de os amazônidas apresentarem ao mundo, nesse momento de crise ambiental, propostas de desenvolvimento com tecnologia endógena e não poluente. Ganham importância os variados modelos de desenvolvimento sustentável de comunidades ribeirinhas e povos indígenas, que devem contar com o crescente apoio das instituições de fomento da região. Mora aí uma das possibilidades de contribuição original da Amazônia para o mundo.

terça-feira, 6 de março de 2007

existência enquanto sonho de outrem

"Numa alvorada sem pássaros, o mago viu cingir-se contra os muros o incêndio concêntrico. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas depois compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-lo de seus trabalhos. Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram e inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando." (Borges, Jorge Luis. As ruínas circulares in Ficções)

É , eu sei. A realidade é dura. O que se vai fazer? Ainda acredito que as relativizações podem ser importantes...

segunda-feira, 5 de março de 2007

grandes jogos e bons livros

Sou um fã de futebol. Sou desses inebriados pela emoção. Tenho um time: isso é fato e não abro mão! A despeito disso, sempre que vejo um jogo, me pego a torcer por um dos lados. Os elementos que me fazem torcer pela vitória de um time sobre o outro são variáveis, e a eles não quero me dedicar aqui. Posso dizer apenas que são variações de rivalidades desde o nível regional até o global: nunca torço pelo Flamengo nem pelo Real Madrid, por exemplo.
A emoção com a qual lido quando assisto futebol me impede de ver o jogo com algum grau de racionalidade. Às vezes, vejo um jogo com alguém e depois do jogo esse alguém me pergunta: “o fulano jogou muito, não?” E eu me ponho a pensar e a tentar lembrar das ações do referido jogador durante a partida. E , em geral, não registro a atuação de um jogador se ele não fez, ao longo da partida, uma espetacular jogada ou um gol. Essa sensação de alheamento aumenta ainda mais com a minha presença no estádio. São tantos os elementos que me chamam a atenção num estádio que o jogo termina se configurando como uma série de fotografias que vou registrando e adequando a uma linha temporal: faço um filme do jogo. Imagino ter mais entendimento sobre o futebol do que a média dos que gostam do jogo. Sei das diferenças básicas de um 4-3-3 para um 3-5-2. A questão para a qual sempre reservei pouca atenção é a dinâmica dos jogadores dentro desses esquemas. E se há alguma coisa importante no futebol é essa dinâmica e os jogadores que a movem. Há uma grande diferença entre se dizer que dois times jogam com dois atacantes, se eu souber que em um desses times os atacantes são o Romário (até uns cinco anos atrás) e o Ademir de Menezes (artilheiro do Expresso da Vitória vascaíno da década de 40 e da Copa de 50).
Talvez essa dinâmica futebolística surja melhor aos olhos mortais em jogos que começam com um grande equilíbrio e passem a uma goleada. É nesses jogos que os comentaristas futebolísticos surgem com aquelas frases “o sicrano entrou e mudou o jogo”. Há de se perguntar: mudou como? Certamente, mudou porque além de entrar abençoado por todos os santos serviu pra alterar a engrenagem da equipe em que atua.
Diante disso, o grande time é aquele que atua sob diferentes toadas, sempre diante das diferenças dos adversários, ou seja, um time que consegue se readaptar a diferentes jogos e necessidades. Um time simplesmente bom pode vencer sempre que começa ganhando, mas pode ser goleado se começar levando um gol. O grande time é capaz de se transformar diante das variadas situações de jogo.
Mas acho mesmo é que são os grandes jogos, não necessariamente de grandes times, é que disparam nos torcedores o gatilho da emoção, e que (como diria Lévi-Strauss) fazem pensar. São nos grandes jogos de futebol que é possível enxergar várias possibilidades e alternativas de resultado: das espetaculares viradas, aos maravilhosos 0x0 repletos de chances de gol. Pensemos aqui no famoso lance, na Copa de 70, em que Pelé bota ao chão o goleiro uruguaio e chuta a bola a poucos milímetros da baliza direita. Às vezes, um gol perdido marca mais (pro bem ou pro mal) a história sentimental de um torcedor (ou de uma torcida) do que um desses simples tentos que se vê nos programas esportivos.
São também os grandes, e ousados, livros que fazem pensar. Fazem com que os leitores atentem para as diferentes estratégias textuais dos escritores. E é por isso que agora escrevo. Li um grande livro e indico: trata-se de “Os detetives selvagens” do chileno Roberto Bolaño. A apreensão que eu tive do texto foi, além da ousada técnica de texto usada pelo autor, a de uma bela aventura na tentativa de discernir a complicada e multifacetada identidade latino-americana. Certamente, entretanto, assim como são vastas as possibilidades (objetivas e subjetivas) de se entender um grande jogo de futebol, são muitas as dimensões capazes de marcar o leitor desse livro.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Bruxaria!

Sempre reencontro as pedras no caminho. É curioso pensar que em pedras com as quais já topei exista até algo de íntimo.
Noutro dia, pensei nisso: andando pelas ruas em Manaus, dei uma clássica topada, dessas que de tão dramáticas provocam risos e inquietações em quem está próximo. Nutro a mania de, depois desses episódios que enchem de vergonha, olhar severamente para o problema. E o problema em questão, as pedras, também merecem severas reprimendas, de modo que as olho como que para ralhar.
Numa dessas olhadas pretensamente intimidadoras, encontrei uma velha amiga, uma pedra que já quase me derrubara em outras latitudes. A danada tinha viajado só para me fazer de bobo a léguas de distância. O acaso...
Entre os Azande, povo alvo das investigações do antropólogo inglês Evans-Pritchard, essas coisas que parecem só encontrar explicação no mais absoluto acaso, são entendidas como sendo fruto de bruxaria ou feitiçaria. Lembro de alguns dos exemplos usados pelos Azande para comprovar tal justificação do acaso: um dos exemplos dizia respeito à reflexão desse povo sobre as circuntâncias nas quais uma velha e abandonada casa havia caído sobre um indivíduo que a usava regularmente para tirar uma soneca depois do almoço.
Ora, tentava demonstrar Evans-Pritchard portador de toda a racionalidade ocidental: se a casa era reconhecidamente velha e abandonada e o camarada a usava regularmente, o caso estaria explicado. Os nativos, entretanto, replicavam: tudo bem, era velha e uma hora iria mesmo ruir, mas por que ser o desabamento justo no período (poucos minutos durante o dia) em que o sujeito dormia por ali? Bruxaria!
Também acredito em bruxaria, é aquele quê restante à realidade que a impede de ser racional. Acreditar em bruxaria, sob a visão Azande, é ser o máximo racional. Ora, a realidade que carece de sistematizações precisa por vezes ser enquadrada: ciência, religiosidade ou bruxaria.
Penso aqui no seguinte caso: um jogador (desses craques que só os campinhos de futebol brasileiros conseguem produzir) nunca erra um chute da marca do pênalti, nem sob chuva e nem debaixo do sol mais abrasador. No mais importante jogo de sua carreira, contudo, chuta a pelota na trave. Bruxaria!
Aliás, a trave funciona quase como uma fronteira: está ali para marcar o limite entre a incompetência e a bruxaria. Se a bola vai pra fora, pode-se concluir o mau trato à redonda. Se vai na trave, não se deve culpar o batedor: o cara fez tudo certo e , putz, a bola (ela ganha, nesses casos, até vontade própria) “quis” ir na trave.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

"del rigor en la ciencia" de Borges ou de como a vida não tem tradução

"En aquel Imperio, el arte de la Cartografía alcanzó tal Perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa del Imperio toda una Provincia. Con el tiempo, esos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaron un Mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él. Menos Adictas al Estudio de la Cartografía, las Generaciones Siguientes entendieron que ese dilatado Mapa era Inútil y no sin Impiedad lo entregaron a las inclemencias del Sol y de los Inviernos. En los desiertos del Oeste perduran despedazadas Ruinas del Mapa, habitadas por Animales y por Mendigos; en todo el País no hay otra reliquia de las Disciplinas Geográficas.”SUÁREZ MIRANDA: Viajes de varones prudentes, Libro Cuarto, cap. XLV, Lérida,1658.”