quinta-feira, 16 de outubro de 2008
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
sobre derrotas (o real da perda)
Li o mais recente livro do Professor de Literatura da USP José Miguel Wisnik. "Veneno Remédio: o futebol e o Brasil" é um livro inovador no que se refere à abordagem do futebol brasileiro: para além das reflexões a respeito das relações e conflitos sociais que giram em torno do futebol, o livro pretende abordar o "jogo de bola" por ele mesmo, obtendo daí conclusões sobre a cultura brasileira. Nunca li nenhum livro com proposta semelhante. Por outro lado, já tive contato com inúmeros trabalhos sobre os grupos de torcedores dos clubes de futebol, a fabricação de suas identidades, a respeito dos clubes ou que abordem a justiça desportivo-futebolística brasileira.
Achei a idéia do livro muito boa. Li de uma vez só. Mas isso me pareceu mais sintoma de uma certa precocidade do livro do que de sua qualidade textual. Não quero dizer que o autor tenha pecado por falhas próprias. Talvez o tema e a forma do texto, ensaio, o tenham levado a isso. Mas o livro é muito acelerado. Numa metáfora futebolística pueril, é como se a bola no jogo nunca se encontrasse com aquele autêntico camisa 10 e estivesse condenada a correr da mão do goleiro ao pé do último atacante, passando por nervosos carregadores de bola. Falta cadência ao texto!
Mas volto-me à essência do livro: suas elucubrações sobre o significado do jogo. Wisnik aponta: "O futebol pode ser visto como um sistema simbólico que traciona o imaginário colocando-o aparentemente à beira de um precipício: o real da perda. Está em questão, assim, a estrutura diferencial e dialética do sujeito, amplificada para as massas. Em termos simples: é preciso que o torcedor aceite a condição de que estamos sujeitos a ganhar (assumindo temporariamente uma onipotência imaginária) e a perder (recebendo uma cota de frustração e de real), ambas relativas e devolvidas ao reinício do jogo." (Wisnik, 2008: p. 46)
Relevante complementar a isso uma observação pessoal de que tornam-se potencialmente mais violentas as torcidas cujos times vencem seus jogos. Em geral, a torcida que perde (em minha visão), salvo em casos de humilhantes goleadas ou catástrofes como rebaixamentos, sai do estádio com menos disposição à violência porque mais tocada pelo que Wisnik chama de "real da perda".
No último sábado, fui ao campo. Já no trajeto que me levava de casa a São Cristóvão, senti a possibilidade da derrota. Pelo caminho, vi muitos vascaínos entusiasmados e confiantes na vitória. Sempre acho que grande confiança não é bom. A turma do teatro não tem aquele superstição de desejar "merda" pelo sucesso? Isso é porque na Grécia os atores viram que não podiam deixar claro que empreendiam uma tentativa de sucesso. Se os deuses soubessem disso, iam querer "brincar" com o espetáculo. Por isso, o "merda". Penso que os vascaínos devíamos inventar coisa assim. Podíamos ficar ali sentados na arquibancada de São Januário como quem lê interessadamente um livro ou pega sol.
A verdade é que o estádio de São Januário encheu. E todas as almas ali, inclusive a minha, resolveram se animar, cantar, gesticular. Prato cheio para os deuses gregos: tragédia na certa. Lá pelos quinze do segundo, o Vasco perdia por quatro a zero. Presente ao estádio, nunca tinha visto tamanho despautério. O "real da perda" dava "boa noite" aos vinte e cinco mil vascaínos.
A partir de agora, torço calado e disfarçado. Meu pai já havia tentado ensinar tal método aos filhos: o Vasco ganhava e ele afirmava solene "O Vasco vai perder!". Eu e meu irmão, indignados, o expulsávamos do ambiente onde estivéssemos. Não sabíamos que o sábio já previa o perigo.
Torçamos calados e disfarçados. Merda, Vasco!
Achei a idéia do livro muito boa. Li de uma vez só. Mas isso me pareceu mais sintoma de uma certa precocidade do livro do que de sua qualidade textual. Não quero dizer que o autor tenha pecado por falhas próprias. Talvez o tema e a forma do texto, ensaio, o tenham levado a isso. Mas o livro é muito acelerado. Numa metáfora futebolística pueril, é como se a bola no jogo nunca se encontrasse com aquele autêntico camisa 10 e estivesse condenada a correr da mão do goleiro ao pé do último atacante, passando por nervosos carregadores de bola. Falta cadência ao texto!
Mas volto-me à essência do livro: suas elucubrações sobre o significado do jogo. Wisnik aponta: "O futebol pode ser visto como um sistema simbólico que traciona o imaginário colocando-o aparentemente à beira de um precipício: o real da perda. Está em questão, assim, a estrutura diferencial e dialética do sujeito, amplificada para as massas. Em termos simples: é preciso que o torcedor aceite a condição de que estamos sujeitos a ganhar (assumindo temporariamente uma onipotência imaginária) e a perder (recebendo uma cota de frustração e de real), ambas relativas e devolvidas ao reinício do jogo." (Wisnik, 2008: p. 46)
Relevante complementar a isso uma observação pessoal de que tornam-se potencialmente mais violentas as torcidas cujos times vencem seus jogos. Em geral, a torcida que perde (em minha visão), salvo em casos de humilhantes goleadas ou catástrofes como rebaixamentos, sai do estádio com menos disposição à violência porque mais tocada pelo que Wisnik chama de "real da perda".
No último sábado, fui ao campo. Já no trajeto que me levava de casa a São Cristóvão, senti a possibilidade da derrota. Pelo caminho, vi muitos vascaínos entusiasmados e confiantes na vitória. Sempre acho que grande confiança não é bom. A turma do teatro não tem aquele superstição de desejar "merda" pelo sucesso? Isso é porque na Grécia os atores viram que não podiam deixar claro que empreendiam uma tentativa de sucesso. Se os deuses soubessem disso, iam querer "brincar" com o espetáculo. Por isso, o "merda". Penso que os vascaínos devíamos inventar coisa assim. Podíamos ficar ali sentados na arquibancada de São Januário como quem lê interessadamente um livro ou pega sol.
A verdade é que o estádio de São Januário encheu. E todas as almas ali, inclusive a minha, resolveram se animar, cantar, gesticular. Prato cheio para os deuses gregos: tragédia na certa. Lá pelos quinze do segundo, o Vasco perdia por quatro a zero. Presente ao estádio, nunca tinha visto tamanho despautério. O "real da perda" dava "boa noite" aos vinte e cinco mil vascaínos.
A partir de agora, torço calado e disfarçado. Meu pai já havia tentado ensinar tal método aos filhos: o Vasco ganhava e ele afirmava solene "O Vasco vai perder!". Eu e meu irmão, indignados, o expulsávamos do ambiente onde estivéssemos. Não sabíamos que o sábio já previa o perigo.
Torçamos calados e disfarçados. Merda, Vasco!
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Infância no Parque 10 - Desagravo a Teupai (parte II)
O fato é que Teupai mudou. Continua fazendo o que fazia com a gente: protege os meninos. Os artífices (e culpados) de sua mudança somos nós, os meninos do Mirante do Parque 10. Ele nos salvara.
Isso se deu num lugar distante. Havíamos entrado na densa floresta. O mato marcava uma região liminar entre nossa cidade e o lugar que descobriríamos, por certo fantástico, a fronteira entre o que éramos e o que poderíamos ser. Por isso, em todas as tardes, explorávamos as possibilidades de alcançar o outro lado. Reuníamos armas (facas de cozinha e bombinhas de "São João") e água para as expedições. Por vezes, Teupai acompanhava o grupo. A técnica que usávamos para saber a distância do ponto de partida era o assobio da mãe de um dos meus amigos: ela chegava às seis da tarde e tentava localizar o filho. Nunca ouvíamos os assobios, mas já aguardávamos. Era a maneira de saber se estávamos longe, mui longe, ou perdidos. E acreditávamos no Fabian. Nosso método, em geral, funcionava. Quando o assobio não vinha, nosso amigo era acusado de desatenção e descuido. Apupado por todos, Fabian logo escutava o assobio. Tudo voltava à ordem e podíamos regressar.
Houve um dia em que chegamos aonde queríamos. Entramos numa fabulosa plantação de arroz (será assim o paraíso?). Uma estrada cortava o arrozal. Resolvemos seguir por ela. Assim fizemos até que vimos um grupo de crianças japonesas (ou descendentes de algum povo oriental) jogando xadrez. Eram, ao menos, sete duplas e aquilo nos chamou a atenção. Agrupados no pé de uma mangueira no centro de uma clareira cortada da plantação, os pequenos avistaram-nos e correram. E fomos atrás! Eles tinham medo, e nós os perseguimos.
Isso se deu num lugar distante. Havíamos entrado na densa floresta. O mato marcava uma região liminar entre nossa cidade e o lugar que descobriríamos, por certo fantástico, a fronteira entre o que éramos e o que poderíamos ser. Por isso, em todas as tardes, explorávamos as possibilidades de alcançar o outro lado. Reuníamos armas (facas de cozinha e bombinhas de "São João") e água para as expedições. Por vezes, Teupai acompanhava o grupo. A técnica que usávamos para saber a distância do ponto de partida era o assobio da mãe de um dos meus amigos: ela chegava às seis da tarde e tentava localizar o filho. Nunca ouvíamos os assobios, mas já aguardávamos. Era a maneira de saber se estávamos longe, mui longe, ou perdidos. E acreditávamos no Fabian. Nosso método, em geral, funcionava. Quando o assobio não vinha, nosso amigo era acusado de desatenção e descuido. Apupado por todos, Fabian logo escutava o assobio. Tudo voltava à ordem e podíamos regressar.
Houve um dia em que chegamos aonde queríamos. Entramos numa fabulosa plantação de arroz (será assim o paraíso?). Uma estrada cortava o arrozal. Resolvemos seguir por ela. Assim fizemos até que vimos um grupo de crianças japonesas (ou descendentes de algum povo oriental) jogando xadrez. Eram, ao menos, sete duplas e aquilo nos chamou a atenção. Agrupados no pé de uma mangueira no centro de uma clareira cortada da plantação, os pequenos avistaram-nos e correram. E fomos atrás! Eles tinham medo, e nós os perseguimos.
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domingo, 28 de setembro de 2008
filhote de diogo mainardi
Antes da ansiada verdade sobre Teupai, posto um vídeo que vi primeiro no www.pedrodoria.com.br.
É engraçado!
sábado, 27 de setembro de 2008
Coração Civil
Esses eleições às Prefeituras dos municípios brasileiros apresentam alguns retrocessos políticos. Nas três cidades em que mais respiro, Niterói, Manaus e Nova Friburgo, o quadro não é muito animador.
Em Manaus, há a inacreditável volta do Amazonino Mendes à disputa pela Prefeitura. Mais impensável que sua candidatura é o fato de ele contar com quase 50% de apoio popular, segundo pesquisas do Ibope. É certo que há chance de o bom prefeito Serafim Corrêa ir ao segundo turno, ao menos.
Em Nova Friburgo, Heródoto Bento de Mello voltou à disputa pelo cargo de prefeito depois de uma temporada na Sibéria socializando-se ao mundo da ciência. Da Sibéria o imaginativo candidato voltou pensando em trens e aviões. Trata-se de um cidadão Kane (capitalizado pelo dinheiro público, é claro).
Em Niterói, um acordão político pouco republicano agrega o PDT ao DEM (e muitos outros partidos) para eleger um desses políticos da mais pura tradição personalista, paternalista, o Jorge Roberto Silveira. Em aliança com o DeM(o)...
Quanto aos dois primeiros candidatos, fico aqui matutando sobre o que é necessário fazer para que os TRE's do Amazonas e do Rio de Janeiro, além do Tribunal Superior Eleitoral, impugnem candidaturas.
Penso que a transformação do nosso estado de coisas passe pela eleição de figuras e partidos comprometidos com a perspectiva de igualdade entre os homens e bom trato com a coisa pública. Acredito, entretanto, que anterior ou junto a isso deve ser a nossa mudança enquanto sociedade. A própria sociedade brasileira deve relativizar alguns de seus valores, deixar de lado o famoso "Você sabe com quem está falando" e outras práticas que reforçam nossas desigualdades e lançar-se à democracia de corpo e alma.
A música que eu posto aqui é bela! Que símbolos como esse sempre unam os brasileiros! Essa versão de "Coração civil" é do Coral de Meninos São Geraldo de Belo Horizonte. Achei no youtube. A composição é de Milton Nascimento e Fernando Brant.
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sábado, 20 de setembro de 2008
Infância no Parque 10 - Desagravo a Teupai (parte I)
Teupai é um belo cachorro. Pertence a uma linhagem que misturou certamente ótimos exemplares da fina flor dos vira-latas amazonenses. Tranqüilo, não chama atenção senão por sua imponência física e postura quase fidalga. Assemelha-se aos cães da raça labrador. Tem o pêlo claro e liso. Jamais ouvi um latido sequer do bicho, que não precisa latir para conquistar suas numerosas amantes por todo o bairro. Passou a fazer parte da vida do grupo de meninos ali do Parque 10, em Manaus, por estar sempre por perto: nas corridas de bicicleta, jogos de bola e em grandes aventuras de exploração pelas redondezas. O curioso nome "Teupai" não sei quem dera. Não lembro se um de meus amigos ou alguém mais velho.
O grupo de meninos, formado por amigos, meu irmão e eu, tinha uma idade média de nove anos. Morávamos todos no Conjunto Icaraí, uma região do Parque 10 que só tinha casas, dois condomínios de prédios e os resquícios de mata que os anos levaram. Por esses resquícios de mata, descobrimos vários atalhos para outras regiões da cidade, como a ainda perdida Colônia dos Colombianos manauara. Em razão das poucas casas e do pequeno movimento de carros, podíamos experimentar uma vida de cidade pequena nas ruas da Manaus do início da década de 90, já com mais de um milhão de habitantes. Ficávamos todos, depois das horas de escola e de algum tempo dedicado às tarefas escolares, livres para ir à rua. Os pais e as mães, em geral, trabalhavam até o início da noite.
À distância dos responsáveis, Teupai representava uma proteção contra outros cachorros, sempre prontos ao ataque, cavalos soltos e selvagens, e outros perigos que ameaçam os meninos em suas expedições e aventuras. Teupai era mesmo um símbolo de nossas bem sucedidas explorações à cidade. Teupai era um amigo.
O grupo de meninos, formado por amigos, meu irmão e eu, tinha uma idade média de nove anos. Morávamos todos no Conjunto Icaraí, uma região do Parque 10 que só tinha casas, dois condomínios de prédios e os resquícios de mata que os anos levaram. Por esses resquícios de mata, descobrimos vários atalhos para outras regiões da cidade, como a ainda perdida Colônia dos Colombianos manauara. Em razão das poucas casas e do pequeno movimento de carros, podíamos experimentar uma vida de cidade pequena nas ruas da Manaus do início da década de 90, já com mais de um milhão de habitantes. Ficávamos todos, depois das horas de escola e de algum tempo dedicado às tarefas escolares, livres para ir à rua. Os pais e as mães, em geral, trabalhavam até o início da noite.
À distância dos responsáveis, Teupai representava uma proteção contra outros cachorros, sempre prontos ao ataque, cavalos soltos e selvagens, e outros perigos que ameaçam os meninos em suas expedições e aventuras. Teupai era mesmo um símbolo de nossas bem sucedidas explorações à cidade. Teupai era um amigo.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
liberalismo nos olhos dos outros é refresco
Os principais Bancos Centrais do mundo anunciaram um plano para socorrer o mercado financeiro mundial: US$ 200 bilhões para segurar a barra dos capitalistas defensores do neoliberalismo. Não é legal?
Mais legal é ver a careta dos tucanos decepcionados com o fato de o Brasil estar passando sem maiores solavancos por uma grande crise financeira internacional.
Mais legal é ver a careta dos tucanos decepcionados com o fato de o Brasil estar passando sem maiores solavancos por uma grande crise financeira internacional.
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