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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Amazonino Mendes cassado

A denúncia do Ministério Público de compra de votos por parte da chapa de Amazonino Mendes custou ao dito cujo a cassação da sua eleição a Prefeito de Manaus. Isso é para se comemorar muito!!!! Como havia apontado em outros posts, Manaus e o Amazonas já perderam muito tempo com esse e outros políticos retrógrados.
Incrível é a desatenção que os jornais amazonenses emprestaram ao fato. Parece tratar-se de um fato ligado a uma longínqua cidade, e não da capital do Estado do Amazonas. Para se ter idéia, meu pai, morador de Manaus e leitor assíduo de jornais, não sabia do fato.
Eu mesmo só soube a partir do comentário de uma grande amiga. Fui verificar nos jornais de Manaus e nada. Só indo aos jornais de outros estados, com pouco destaque, vê-se a notícia.
Como forma de fortalecer a divulgação dessa importantíssima notícia, adicionarei abaixo o link de matérias escritas na Folha de São Paulo e no Correio Braziliense. Aqui vão:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u472641.shtml

http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_3/2008/11/29/noticia_interna,id_sessao=3&id_noticia=53148/noticia_interna.shtml


Agora é torcer para que a justiça seja feita!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

As cidades e seus ares (o caso de Manaus)

Interesso-me muito por tentar decifrar nas cidades o que alguns chamam de "espírito de época" (acho que quem usou esse termo, primeiramente, foi Hegel). Uma das cidades das quais me sinto mais confortável a tratar é Manaus, a cidade onde nasci e vivi até os 14 anos. Penso que tenha percebido inicialmente o ideário que toma o ambiente sócio-cultural manauara justamente porque ele se opôs à essência de minha personalidade. Desde a meninice (posso dizer que existo enquanto observador da realidade desde o início da década de 90), ouço dos mais velhos que me cercavam louvações ao grande crescimento econômico que Manaus já experimentava. Nesses casos, eram sempre citadas as cifras crescentes do PIB de Manaus e de sua população como signos inequívocos da importância conquistada pela cidade no cenário nacional. Quanto mais velho fui ficando, mais distanciamento tomei dessa perspectiva: primeiro, por pura birra, já que eu sempre desconfio, e assim sigo fazendo, dos muito otimistas; depois, por começar a tomar pé da realidade manauara.

Na verdade, o propalado crescimento econômico da cidade nada tem de original e é tão frágil quanto o solo amazônico. Como se sabe, esse crescimento baseia-se na política de incentivos fiscais que deu início à Zona Franca de Manaus, hoje Pólo Industrial de Manaus. A imensa parte desse pólo é constituída de filiais de indústrias estrangeiras com tecnologia própria e que, a qualquer mudança dos ventos políticos e econômicos, podem partir da cidade mais rapidamente que as sementes de seringueira. Essas deixaram o Amazonas por navio, levadas por representantes ingleses, diretamente às colônias da Inglaterra.

Apesar de o Amazonas ter vivido durante quatro décadas ( da década de 20 até a de 60) sob a dureza de uma fantástica estagnação econômica, pelo fim de um ciclo extrativista, e viver com a sombra da possibilidade de experiência semelhante, não se alterou a essência do discurso dos meus conterrâneos de elogio ao crescimento e de louvação ao seu poderio econômico.

Os manauaras vibram a cada novo prédio de arquitetura futurista, a cada novo viaduto em sua malha urbana. O questionamento a esse processo de crescimento que fez de Manaus uma cidade de 1,7 milhão de habitantes não faz parte do arsenal discursivo da cidade. Quem questiona, destoa! Lembro aqui de Marshall Berman, em seu grande "Tudo que é sólido desmancha no ar", no qual ele recorda sua infância no Brooklin, bairro de Nova Iorque. O autor descreve o bairro de sua infância como um lugar cheio de gente nas calçadas e nas ruas, crianças a brincar nas redondezas de suas casas, até que urbanistas resolveram cortar o bairro com uma imensa avenida, apresentada à cidade inteira como símbolo maior de um novo tempo, símbolo da modernidade. Berman relata que contra esse adversário, a modernidade, era impossível lutar. Apesar de ofendidos pela construção que lhes tirava a originalidade do bairro, seus moradores não puderam se opor à essência daquele movimento. No extremo, temiam se opor ao sonho da modernidade e representar o atraso.

Ora, no caso de Manaus, não se trata de se opor à transformação da cidade, ao dinheiro. Não é o que faço aqui, mas de propor que os manauaras olhem para as bases de seu crescimento econômico e verifiquem sua fragilidade. Escrevo essas linhas muito influenciado por um texto que acabo de ler do amazonense Antônio José Botelho, meu tio, que tem como título "Raciocinando por fora do pensamento único: evidências subjetivas de uma esquizofrenia histórica"*. O texto trata de comparar os processos de industrialização coreano e manauara, um que serviu como meio ao aprendizado tecnológico e outro que tem a política de atração de investimentos como fim em si.

Será que daqui a cinqüenta anos, os netos dos manauaras vão ouvir apenas relatos e louvações a uma época de fausto passada? Pois, eu ouvi tais histórias de meus avós em relação à borracha. Será que Manaus e o Amazonas serão incapazes de fortalecer o conhecimento e a tecnologia locais? Ou será que esse espírito amazonense de eterna louvação vai ganhar uma vírgula antes?

Abaixo, a verdadeira cor do Rio Negro:





* o texto, além de outros trabalhos, pode ser encontrado no site www.argo.com.br/antoniojosebotelho. Ali na barra lateral, vou adicionar um link permanente.

sábado, 27 de setembro de 2008

Coração Civil



Esses eleições às Prefeituras dos municípios brasileiros apresentam alguns retrocessos políticos. Nas três cidades em que mais respiro, Niterói, Manaus e Nova Friburgo, o quadro não é muito animador.

Em Manaus, há a inacreditável volta do Amazonino Mendes à disputa pela Prefeitura. Mais impensável que sua candidatura é o fato de ele contar com quase 50% de apoio popular, segundo pesquisas do Ibope. É certo que há chance de o bom prefeito Serafim Corrêa ir ao segundo turno, ao menos.

Em Nova Friburgo, Heródoto Bento de Mello voltou à disputa pelo cargo de prefeito depois de uma temporada na Sibéria socializando-se ao mundo da ciência. Da Sibéria o imaginativo candidato voltou pensando em trens e aviões. Trata-se de um cidadão Kane (capitalizado pelo dinheiro público, é claro).

Em Niterói, um acordão político pouco republicano agrega o PDT ao DEM (e muitos outros partidos) para eleger um desses políticos da mais pura tradição personalista, paternalista, o Jorge Roberto Silveira. Em aliança com o DeM(o)...

Quanto aos dois primeiros candidatos, fico aqui matutando sobre o que é necessário fazer para que os TRE's do Amazonas e do Rio de Janeiro, além do Tribunal Superior Eleitoral, impugnem candidaturas.

Penso que a transformação do nosso estado de coisas passe pela eleição de figuras e partidos comprometidos com a perspectiva de igualdade entre os homens e bom trato com a coisa pública. Acredito, entretanto, que anterior ou junto a isso deve ser a nossa mudança enquanto sociedade. A própria sociedade brasileira deve relativizar alguns de seus valores, deixar de lado o famoso "Você sabe com quem está falando" e outras práticas que reforçam nossas desigualdades e lançar-se à democracia de corpo e alma.

A música que eu posto aqui é bela! Que símbolos como esse sempre unam os brasileiros! Essa versão de "Coração civil" é do Coral de Meninos São Geraldo de Belo Horizonte. Achei no youtube. A composição é de Milton Nascimento e Fernando Brant.

sábado, 20 de setembro de 2008

Infância no Parque 10 - Desagravo a Teupai (parte I)

Teupai é um belo cachorro. Pertence a uma linhagem que misturou certamente ótimos exemplares da fina flor dos vira-latas amazonenses. Tranqüilo, não chama atenção senão por sua imponência física e postura quase fidalga. Assemelha-se aos cães da raça labrador. Tem o pêlo claro e liso. Jamais ouvi um latido sequer do bicho, que não precisa latir para conquistar suas numerosas amantes por todo o bairro. Passou a fazer parte da vida do grupo de meninos ali do Parque 10, em Manaus, por estar sempre por perto: nas corridas de bicicleta, jogos de bola e em grandes aventuras de exploração pelas redondezas. O curioso nome "Teupai" não sei quem dera. Não lembro se um de meus amigos ou alguém mais velho.
O grupo de meninos, formado por amigos, meu irmão e eu, tinha uma idade média de nove anos. Morávamos todos no Conjunto Icaraí, uma região do Parque 10 que só tinha casas, dois condomínios de prédios e os resquícios de mata que os anos levaram. Por esses resquícios de mata, descobrimos vários atalhos para outras regiões da cidade, como a ainda perdida Colônia dos Colombianos manauara. Em razão das poucas casas e do pequeno movimento de carros, podíamos experimentar uma vida de cidade pequena nas ruas da Manaus do início da década de 90, já com mais de um milhão de habitantes. Ficávamos todos, depois das horas de escola e de algum tempo dedicado às tarefas escolares, livres para ir à rua. Os pais e as mães, em geral, trabalhavam até o início da noite.
À distância dos responsáveis, Teupai representava uma proteção contra outros cachorros, sempre prontos ao ataque, cavalos soltos e selvagens, e outros perigos que ameaçam os meninos em suas expedições e aventuras. Teupai era mesmo um símbolo de nossas bem sucedidas explorações à cidade. Teupai era um amigo.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Milton Hatoum

Sempre me pego refletindo a respeito de grandes figuras do Brasil e, às vezes, do meu estado natal. O Amazonas não tem uma grande quantidade de escritores renomados no país, mas há um autor contemporâneo que me encanta. Trata-se de Milton Hatoum. Gosto muito de sua escrita, e da complexa Manaus que ele faz mundo com suas palavras. Os personagens manauaras e amazoneneses circulam por suas tramas como altivos senhores do mundo. Todos somos reis: daí a importância de contar o humano no que tem de universal a partir do local.
Do ponto de vista pessoal, o cheiro da Manaus que o Hatoum descreve é aquele que eu sinto todas as vezes em que vou por lá. É uma mistura de galhardia e tristeza, fausto e miséria, pureza e podridão. Essa Manaus eu penso que carrego comigo.
Nos últimos dias, li o último livro publicado por ele: a novela "Órfãos do Eldorado". Gostei muito do texto e achei interessantíssima a epígrafe de abertura do livro: é um trecho de um poema de Konstantino Kafávis. Reproduzo uma pequena parte aqui:

"Não encontrarás novas terras, nem outros mares.
A cidade irá contigo. Andarás sem rumo.
Pelas mesmas ruas. Vais envelhecer no mesmo bairro.
Teu cabelo vai embranquecer nas mesmas casas.
Sempre chegarás a essa cidade. Não esperes ir a outro lugar.
Não há barco nem caminho pra ti."

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

vislumbrando uma nova Manaus

Postarei aqui um pequeno artigo que tentarei publicar num jornal amazonense. Antes disso, disponibilizarei-o aqui. Trata-se de uma pequena reflexão sobre o "retrato" de símbolos da sociedade amazonense através da minissérie global "Amazônia". Tento apresentar a atualidade de se falar na ultravalorização de alguns símbolos por essa sociedade, apesar das evidentes transformações do mundo capitalista.
O que quero dizer, no fundo, é que quanto à sociedade amazonense mudaram algumas formas simbólicas, mas a essência da valorização de símbolos da cultura material ainda é muito forte.
Torço para que isso mude: só de outra forma é possível transformar um pouco a realidade.
É Isso!
Abaixo o texto:


Manaus: ontem, hoje e amanhã


Nos últimos tempos, o Brasil tem sido apresentado a um momento histórico da sociedade amazonense, através de uma produção televisiva de uma das emissoras de TV com alcance nacional. Tal momento se refere ao ápice do ciclo econômico da borracha, que engendrou o acúmulo de imensas fortunas pelos proprietários dos grandes seringais. Evidente que a mais fortuna ainda tiveram acesso os importadores da borracha que a transformavam em produtos industrializados, posteriormente revendidos aos endinheirados da borracha por um valor de mercado certamente maior.
A despeito de alguns símbolos manejados pela produção serem exagerados, salta aos olhos para os outros brasileiros a representação de um quadro de coisas muitas vezes reproduzido oralmente na sociedade amazonense. E que quadro é esse? É o do fausto econômico, do esbanjamento, do orgulho pela abundância da riqueza que circulava pelas ruas de nossa capital, mas que era obtida através do suado (e mal pago) trabalho de seringueiros espalhados pelo interior do estado. Um livro do português Ferreira de Castro de título “A selva” apresenta ao leitor a sofrida vida dos trabalhadores nos seringais.
Uma cena imaginária me acompanha desde a meninice: um rico coronel da borracha a enrolar seu tabaco com uma nota de cem mil réis. Como amazonense, nem precisei de livros para chegar a essa informação. Provavelmente, uma de minhas avós me narrou a história chegada a ela já mediada por um outro antepassado.
O que eu quero propor à análise dos leitores aqui é o seguinte: até que ponto a sociedade manauara é diferente do que foi nos tempos da borracha? Sem dúvida, os tempos do capitalismo são outros: hoje em dia um dono de um seringal não seria agraciado por tamanho poderio econômico. Certamente, ficaria acabrunhado no provincianismo de suas terras. O esbanjamento que acometeu nossos coronéis na virada do século XIX pro século XX se inseria num quadro ideológico que pintava as cores das vidas dos dândis e bon vivants. Esbanjar era um símbolo de riqueza e prestígio. Hoje, o esbanjamento já não é bem visto ou valorizado pela elite econômica.
É através dos símbolos que os indivíduos podem comunicar à sociedade o que são. Numa sociedade em que a mobilidade social é existente como na brasileira, os símbolos ganham forma que vão desde a vestimenta trajada até o celular usado. E se vêem espalhados pelas ruas da cidade tais símbolos em movimento nas mãos ou nos corpos dos manauaras. Em termos gerais, no capitalismo é melhor quem tem mais. E nisso Manaus não mudou, bem como grande parte do mundo.
Há, entretanto, um símbolo também capaz de conferir prestígio, que proporciona o acesso ao conhecimento. Tal símbolo, mais valorizado em outras partes do mundo, proporciona a quem ganha intimidade com ele a possibilidade de vislumbrar outras realidades possíveis. Mostra a história que as sociedades mais íntimas ao conhecimento e à educação conseguiram resolver seus problemas e avançar muito mais que as que não o valorizam. O símbolo, que na verdade é um instrumento, do qual trato é o livro. Se víssemos, e eu espero que um dia chegaremos a isso, tantos livros pela cidade quanto celulares e automóveis, mais rapidamente teríamos mais ciência da nossa contraditória sociedade e avançaríamos rumo a um melhor mundo.

sábado, 13 de janeiro de 2007

ano novo!! (31/12/2006)

Quase num novo ano por essas bandas tropicais! Que seja um bom ano pra todos!!Depois de ficar massacrado pelo calor niteroiense, os ares da serra renovaram as esperanças.Renovadas as esperanças, coloco aqui um artigo escrito por mim e publicado pelo jornal "Estado do Amazonas".Já devo ter escrito sobre isso, mas a satisfação de escrever algo e ser lido por mais do que os integrantes de uma banca acadêmica é grande. Por isso, sempre fico feliz quando acontece!O artigo trata de um olhar sobre a realidade urbana e uma reflexão a respeito do imaginário de uma cidade protagonista de pelo menos dois grandes ciclos econômicos, mas que precisa se integrar ao mundo criando e propondo soluções endógenas, capazes de trazer à baila a maioria da população (sempre alijada do fausto econômico).É isso!Torço para que o próximo ano seja bom pro mundo, em especial, aos seres humanos mais próximos de mim.Feliz ano novo e abraço a todos!!


POR MAIS VOZES NA CIDADE
Noutro dia, tomei um táxi em Manaus. Num dia quente, as ruas da cidade estavam entupidas pelos carros. Depois de alguns minutos, perguntei ao taxista se aquele fenômeno era normal. Ele me disse que sim: todos os dias passava pelo mesmo. Perguntei o que ele achava daquilo. Respondeu-me que pensava que isso era inevitável já que a cidade estava crescendo e se modernizando. Dessa forma, a única coisa a fazer era esperar.
O episódio narrado demonstra o quanto a “modernização” de Manaus parece ocorrer à revelia de grande parte da população da cidade, como se fosse possível uma cidade se desenvolver sem a participação de seus habitantes em tal processo.
Tal alheamento de grande parte da população de um processo de modernização não é inédito em nossa história. Mesmo na historiografia sobre a realidade urbana de Manaus, não são poucos os relatos que põem em paralelo todo o fausto trazido pelo dinheiro da borracha à cidade, com melhoramentos que superavam os da então capital federal Rio de Janeiro, e a realidade muito distinta de outras partes da cidade distantes do circuito das óperas e cafés.
O atual fluxo modernizador tem como vetor básico o Pólo Industrial de Manaus. Manaus passa a ser vista e se identificar como uma cidade industrial, tecnológica, portanto antenada à rede das grandes cidades mundiais. Manaus, mais uma vez, se encontra num redemoinho que reúne vultosas quantias de seu parque industrial e uma péssima qualidade de vida de grande parte de sua população. Tal contradição profunda é conhecida por quem minimamente reflete sobre a condição sócio-econômica da população de Manaus e do Amazonas.
Chamo atenção aqui para uma outra dimensão capaz de revelar mais um aspecto da contradição que apontei acima. Não é raro ouvir ou ler discursos de atores sociais manauaras com acesso aos meios de comunicação que dão conta da inequívoca entrada de Manaus a um rol de cidades-pólo de alguns símbolos de poderio econômico. Quanto mais sofisticados restaurantes, lojas de grife presentes em importantes cidades do Brasil e do mundo, mais espaços caracterizados como globais, mais Manaus estaria inserida num quadro ideal de modernidade.
É evidente que a própria realidade oferece elementos para contrabalançar todo esse avanço. E se há uma característica que permita a uma cidade se pretender moderna é a complexidade de seus atores sociais e das relações entre eles. Tal realidade multifacetada não falta à Manaus. Ausentes são a inclusão e a legitimação no espaço público de uma maior quantidade de discursos de personagens de Manaus, o que poderá conferir às representações a respeito da cidade uma heterogeneidade que já lhe é peculiar.
Fundamentais nesse processo seriam o fortalecimento de entidades de classe (de sindicatos patronais ao de trabalhadores), do movimento estudantil, enfim de grupos que de alguma forma representassem as variadas visões a respeito de cidade e modernidade, além de fóruns de discussão que possibilitassem a reunião desses pontos de vista.
Não nos furtaríamos a ouvir as maravilhas da Manaus vivida pelos segmentos no topo da pirâmide social, mas escutaríamos os outros anseios da base da população.

sobre convivência (10/09/2006)

Noutro dia, fui alvo de assaltantes. Fugi pelas vazias calçadas de Manaus. Terminei me escondendo no único estabelecimento comercial aberto nas proximidades. E não era tarde: a noite tinha acabado de chegar.O lugar onde fui assaltado é uma importante avenida que leva os trabalhadores e empresários para o Distrito Industrial, encarado como "ouro" pelo imaginário amazonense. Pois bem, perto dali estão um grande centro comercial, tido como o mais elitizado da cidade, e uma favela que se consolidou às margens de um igarapé.O curioso é que apesar do aparente agito, por ali não há pedestres. Os carros passam em alta velocidade. Há algum tempo, escrevi um artigo sobre o "espaço público" em Manaus, que foi publicado pelo jornal "O Estado do Amazonas". Em linhas gerais, essa cidade para encontrar um maior desenvolvimento humano tem que refletir sua própria condição. Para isso, compartilhar idéias, diálogos e conflitos com os diferentes grupos é fundamental.Reproduzo abaixo o peuqeno texto que tinha citado há pouco:



ESPAÇO PÚBLICO EM MANAUS: A DIFÍCIL VIDA DO PEDESTRE

Caminhar pelas ruas da cidade de Manaus torna-se cada vez mais desagradável. A experiência de ter quase que sob os calcanhares veículos, grandes ou pequenos, desencoraja o manauara a circular pelo espaço público. As calçadas, sempre estreitas e carentes de uma homogeneização, parecem cada vez mais sucumbir diante do avanço do uso dos automóveis e das vias construídas para o aproveitamento de sua velocidade crescente. Ora, não estou preocupado com a saúde física do morador de Manaus quando escrevo essas linhas, embora a caminhada seja de fato um exercício saudável.O que salta aos olhos é a desvalorização de um elemento primordial para a compreensão da realidade urbana e fundador da riqueza característica da vida nas cidades: a convivência, nos espaços de uso público, entre os diversos “atores sociais”, o diálogo entre personagens e grupos diferentes constituintes desse cenário que é a cidade. A desvalorização do espaço público, dessa forma, tem como significado mesmo a depreciação da heterogeneidade como um princípio para a urbe. O manauara conhece cada vez menos os espaços comuns de sua cidade, usa cada vez menos os equipamentos urbanos dela, como que impelido a um estilo de vida que leva muito mais em conta o automóvel e a freqüência a espaços dedicados ao consumo.Os espaços de consumo, por sua vez, são por princípio excludentes. Neles, os indivíduos não são iguais por sua cidadania, mas se igualam somente na condição de clientes ou prováveis clientes. Visto que os espaços para o consumo se caracterizam pela busca de um tipo de comprador, passa-se a ter uma realidade urbana compartimentada em diversos espaços para o consumo freqüentados por públicos específicos. Portanto, segmentos sociais de renda superior não convivem com segmentos populares.Mais que tudo, desvalorizar a dimensão da vida urbana do contato com o diverso, com o outro, é abrir mão do conhecimento sobre a realidade da cidade e de seus habitantes. Enclausurar-se em carros ou em “shopping centers” é fechar-se à possibilidade de estabelecer linhas de diálogo que possibilitem a construção de novas soluções para o convívio social.