"Numa alvorada sem pássaros, o mago viu cingir-se contra os muros o incêndio concêntrico. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas depois compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-lo de seus trabalhos. Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram e inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando." (Borges, Jorge Luis. As ruínas circulares in Ficções)
É , eu sei. A realidade é dura. O que se vai fazer? Ainda acredito que as relativizações podem ser importantes...
terça-feira, 6 de março de 2007
segunda-feira, 5 de março de 2007
grandes jogos e bons livros
Sou um fã de futebol. Sou desses inebriados pela emoção. Tenho um time: isso é fato e não abro mão! A despeito disso, sempre que vejo um jogo, me pego a torcer por um dos lados. Os elementos que me fazem torcer pela vitória de um time sobre o outro são variáveis, e a eles não quero me dedicar aqui. Posso dizer apenas que são variações de rivalidades desde o nível regional até o global: nunca torço pelo Flamengo nem pelo Real Madrid, por exemplo.
A emoção com a qual lido quando assisto futebol me impede de ver o jogo com algum grau de racionalidade. Às vezes, vejo um jogo com alguém e depois do jogo esse alguém me pergunta: “o fulano jogou muito, não?” E eu me ponho a pensar e a tentar lembrar das ações do referido jogador durante a partida. E , em geral, não registro a atuação de um jogador se ele não fez, ao longo da partida, uma espetacular jogada ou um gol. Essa sensação de alheamento aumenta ainda mais com a minha presença no estádio. São tantos os elementos que me chamam a atenção num estádio que o jogo termina se configurando como uma série de fotografias que vou registrando e adequando a uma linha temporal: faço um filme do jogo. Imagino ter mais entendimento sobre o futebol do que a média dos que gostam do jogo. Sei das diferenças básicas de um 4-3-3 para um 3-5-2. A questão para a qual sempre reservei pouca atenção é a dinâmica dos jogadores dentro desses esquemas. E se há alguma coisa importante no futebol é essa dinâmica e os jogadores que a movem. Há uma grande diferença entre se dizer que dois times jogam com dois atacantes, se eu souber que em um desses times os atacantes são o Romário (até uns cinco anos atrás) e o Ademir de Menezes (artilheiro do Expresso da Vitória vascaíno da década de 40 e da Copa de 50).
Talvez essa dinâmica futebolística surja melhor aos olhos mortais em jogos que começam com um grande equilíbrio e passem a uma goleada. É nesses jogos que os comentaristas futebolísticos surgem com aquelas frases “o sicrano entrou e mudou o jogo”. Há de se perguntar: mudou como? Certamente, mudou porque além de entrar abençoado por todos os santos serviu pra alterar a engrenagem da equipe em que atua.
Diante disso, o grande time é aquele que atua sob diferentes toadas, sempre diante das diferenças dos adversários, ou seja, um time que consegue se readaptar a diferentes jogos e necessidades. Um time simplesmente bom pode vencer sempre que começa ganhando, mas pode ser goleado se começar levando um gol. O grande time é capaz de se transformar diante das variadas situações de jogo.
Mas acho mesmo é que são os grandes jogos, não necessariamente de grandes times, é que disparam nos torcedores o gatilho da emoção, e que (como diria Lévi-Strauss) fazem pensar. São nos grandes jogos de futebol que é possível enxergar várias possibilidades e alternativas de resultado: das espetaculares viradas, aos maravilhosos 0x0 repletos de chances de gol. Pensemos aqui no famoso lance, na Copa de 70, em que Pelé bota ao chão o goleiro uruguaio e chuta a bola a poucos milímetros da baliza direita. Às vezes, um gol perdido marca mais (pro bem ou pro mal) a história sentimental de um torcedor (ou de uma torcida) do que um desses simples tentos que se vê nos programas esportivos.
São também os grandes, e ousados, livros que fazem pensar. Fazem com que os leitores atentem para as diferentes estratégias textuais dos escritores. E é por isso que agora escrevo. Li um grande livro e indico: trata-se de “Os detetives selvagens” do chileno Roberto Bolaño. A apreensão que eu tive do texto foi, além da ousada técnica de texto usada pelo autor, a de uma bela aventura na tentativa de discernir a complicada e multifacetada identidade latino-americana. Certamente, entretanto, assim como são vastas as possibilidades (objetivas e subjetivas) de se entender um grande jogo de futebol, são muitas as dimensões capazes de marcar o leitor desse livro.
A emoção com a qual lido quando assisto futebol me impede de ver o jogo com algum grau de racionalidade. Às vezes, vejo um jogo com alguém e depois do jogo esse alguém me pergunta: “o fulano jogou muito, não?” E eu me ponho a pensar e a tentar lembrar das ações do referido jogador durante a partida. E , em geral, não registro a atuação de um jogador se ele não fez, ao longo da partida, uma espetacular jogada ou um gol. Essa sensação de alheamento aumenta ainda mais com a minha presença no estádio. São tantos os elementos que me chamam a atenção num estádio que o jogo termina se configurando como uma série de fotografias que vou registrando e adequando a uma linha temporal: faço um filme do jogo. Imagino ter mais entendimento sobre o futebol do que a média dos que gostam do jogo. Sei das diferenças básicas de um 4-3-3 para um 3-5-2. A questão para a qual sempre reservei pouca atenção é a dinâmica dos jogadores dentro desses esquemas. E se há alguma coisa importante no futebol é essa dinâmica e os jogadores que a movem. Há uma grande diferença entre se dizer que dois times jogam com dois atacantes, se eu souber que em um desses times os atacantes são o Romário (até uns cinco anos atrás) e o Ademir de Menezes (artilheiro do Expresso da Vitória vascaíno da década de 40 e da Copa de 50).
Talvez essa dinâmica futebolística surja melhor aos olhos mortais em jogos que começam com um grande equilíbrio e passem a uma goleada. É nesses jogos que os comentaristas futebolísticos surgem com aquelas frases “o sicrano entrou e mudou o jogo”. Há de se perguntar: mudou como? Certamente, mudou porque além de entrar abençoado por todos os santos serviu pra alterar a engrenagem da equipe em que atua.
Diante disso, o grande time é aquele que atua sob diferentes toadas, sempre diante das diferenças dos adversários, ou seja, um time que consegue se readaptar a diferentes jogos e necessidades. Um time simplesmente bom pode vencer sempre que começa ganhando, mas pode ser goleado se começar levando um gol. O grande time é capaz de se transformar diante das variadas situações de jogo.
Mas acho mesmo é que são os grandes jogos, não necessariamente de grandes times, é que disparam nos torcedores o gatilho da emoção, e que (como diria Lévi-Strauss) fazem pensar. São nos grandes jogos de futebol que é possível enxergar várias possibilidades e alternativas de resultado: das espetaculares viradas, aos maravilhosos 0x0 repletos de chances de gol. Pensemos aqui no famoso lance, na Copa de 70, em que Pelé bota ao chão o goleiro uruguaio e chuta a bola a poucos milímetros da baliza direita. Às vezes, um gol perdido marca mais (pro bem ou pro mal) a história sentimental de um torcedor (ou de uma torcida) do que um desses simples tentos que se vê nos programas esportivos.
São também os grandes, e ousados, livros que fazem pensar. Fazem com que os leitores atentem para as diferentes estratégias textuais dos escritores. E é por isso que agora escrevo. Li um grande livro e indico: trata-se de “Os detetives selvagens” do chileno Roberto Bolaño. A apreensão que eu tive do texto foi, além da ousada técnica de texto usada pelo autor, a de uma bela aventura na tentativa de discernir a complicada e multifacetada identidade latino-americana. Certamente, entretanto, assim como são vastas as possibilidades (objetivas e subjetivas) de se entender um grande jogo de futebol, são muitas as dimensões capazes de marcar o leitor desse livro.
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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
Bruxaria!
Sempre reencontro as pedras no caminho. É curioso pensar que em pedras com as quais já topei exista até algo de íntimo.
Noutro dia, pensei nisso: andando pelas ruas em Manaus, dei uma clássica topada, dessas que de tão dramáticas provocam risos e inquietações em quem está próximo. Nutro a mania de, depois desses episódios que enchem de vergonha, olhar severamente para o problema. E o problema em questão, as pedras, também merecem severas reprimendas, de modo que as olho como que para ralhar.
Numa dessas olhadas pretensamente intimidadoras, encontrei uma velha amiga, uma pedra que já quase me derrubara em outras latitudes. A danada tinha viajado só para me fazer de bobo a léguas de distância. O acaso...
Entre os Azande, povo alvo das investigações do antropólogo inglês Evans-Pritchard, essas coisas que parecem só encontrar explicação no mais absoluto acaso, são entendidas como sendo fruto de bruxaria ou feitiçaria. Lembro de alguns dos exemplos usados pelos Azande para comprovar tal justificação do acaso: um dos exemplos dizia respeito à reflexão desse povo sobre as circuntâncias nas quais uma velha e abandonada casa havia caído sobre um indivíduo que a usava regularmente para tirar uma soneca depois do almoço.
Ora, tentava demonstrar Evans-Pritchard portador de toda a racionalidade ocidental: se a casa era reconhecidamente velha e abandonada e o camarada a usava regularmente, o caso estaria explicado. Os nativos, entretanto, replicavam: tudo bem, era velha e uma hora iria mesmo ruir, mas por que ser o desabamento justo no período (poucos minutos durante o dia) em que o sujeito dormia por ali? Bruxaria!
Também acredito em bruxaria, é aquele quê restante à realidade que a impede de ser racional. Acreditar em bruxaria, sob a visão Azande, é ser o máximo racional. Ora, a realidade que carece de sistematizações precisa por vezes ser enquadrada: ciência, religiosidade ou bruxaria.
Penso aqui no seguinte caso: um jogador (desses craques que só os campinhos de futebol brasileiros conseguem produzir) nunca erra um chute da marca do pênalti, nem sob chuva e nem debaixo do sol mais abrasador. No mais importante jogo de sua carreira, contudo, chuta a pelota na trave. Bruxaria!
Aliás, a trave funciona quase como uma fronteira: está ali para marcar o limite entre a incompetência e a bruxaria. Se a bola vai pra fora, pode-se concluir o mau trato à redonda. Se vai na trave, não se deve culpar o batedor: o cara fez tudo certo e , putz, a bola (ela ganha, nesses casos, até vontade própria) “quis” ir na trave.
Noutro dia, pensei nisso: andando pelas ruas em Manaus, dei uma clássica topada, dessas que de tão dramáticas provocam risos e inquietações em quem está próximo. Nutro a mania de, depois desses episódios que enchem de vergonha, olhar severamente para o problema. E o problema em questão, as pedras, também merecem severas reprimendas, de modo que as olho como que para ralhar.
Numa dessas olhadas pretensamente intimidadoras, encontrei uma velha amiga, uma pedra que já quase me derrubara em outras latitudes. A danada tinha viajado só para me fazer de bobo a léguas de distância. O acaso...
Entre os Azande, povo alvo das investigações do antropólogo inglês Evans-Pritchard, essas coisas que parecem só encontrar explicação no mais absoluto acaso, são entendidas como sendo fruto de bruxaria ou feitiçaria. Lembro de alguns dos exemplos usados pelos Azande para comprovar tal justificação do acaso: um dos exemplos dizia respeito à reflexão desse povo sobre as circuntâncias nas quais uma velha e abandonada casa havia caído sobre um indivíduo que a usava regularmente para tirar uma soneca depois do almoço.
Ora, tentava demonstrar Evans-Pritchard portador de toda a racionalidade ocidental: se a casa era reconhecidamente velha e abandonada e o camarada a usava regularmente, o caso estaria explicado. Os nativos, entretanto, replicavam: tudo bem, era velha e uma hora iria mesmo ruir, mas por que ser o desabamento justo no período (poucos minutos durante o dia) em que o sujeito dormia por ali? Bruxaria!
Também acredito em bruxaria, é aquele quê restante à realidade que a impede de ser racional. Acreditar em bruxaria, sob a visão Azande, é ser o máximo racional. Ora, a realidade que carece de sistematizações precisa por vezes ser enquadrada: ciência, religiosidade ou bruxaria.
Penso aqui no seguinte caso: um jogador (desses craques que só os campinhos de futebol brasileiros conseguem produzir) nunca erra um chute da marca do pênalti, nem sob chuva e nem debaixo do sol mais abrasador. No mais importante jogo de sua carreira, contudo, chuta a pelota na trave. Bruxaria!
Aliás, a trave funciona quase como uma fronteira: está ali para marcar o limite entre a incompetência e a bruxaria. Se a bola vai pra fora, pode-se concluir o mau trato à redonda. Se vai na trave, não se deve culpar o batedor: o cara fez tudo certo e , putz, a bola (ela ganha, nesses casos, até vontade própria) “quis” ir na trave.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
"del rigor en la ciencia" de Borges ou de como a vida não tem tradução
"En aquel Imperio, el arte de la Cartografía alcanzó tal Perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa del Imperio toda una Provincia. Con el tiempo, esos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaron un Mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él. Menos Adictas al Estudio de la Cartografía, las Generaciones Siguientes entendieron que ese dilatado Mapa era Inútil y no sin Impiedad lo entregaron a las inclemencias del Sol y de los Inviernos. En los desiertos del Oeste perduran despedazadas Ruinas del Mapa, habitadas por Animales y por Mendigos; en todo el País no hay otra reliquia de las Disciplinas Geográficas.”SUÁREZ MIRANDA: Viajes de varones prudentes, Libro Cuarto, cap. XLV, Lérida,1658.”
terça-feira, 23 de janeiro de 2007
vislumbrando uma nova Manaus
Postarei aqui um pequeno artigo que tentarei publicar num jornal amazonense. Antes disso, disponibilizarei-o aqui. Trata-se de uma pequena reflexão sobre o "retrato" de símbolos da sociedade amazonense através da minissérie global "Amazônia". Tento apresentar a atualidade de se falar na ultravalorização de alguns símbolos por essa sociedade, apesar das evidentes transformações do mundo capitalista.
O que quero dizer, no fundo, é que quanto à sociedade amazonense mudaram algumas formas simbólicas, mas a essência da valorização de símbolos da cultura material ainda é muito forte.
Torço para que isso mude: só de outra forma é possível transformar um pouco a realidade.
É Isso!
Abaixo o texto:
Manaus: ontem, hoje e amanhã
Nos últimos tempos, o Brasil tem sido apresentado a um momento histórico da sociedade amazonense, através de uma produção televisiva de uma das emissoras de TV com alcance nacional. Tal momento se refere ao ápice do ciclo econômico da borracha, que engendrou o acúmulo de imensas fortunas pelos proprietários dos grandes seringais. Evidente que a mais fortuna ainda tiveram acesso os importadores da borracha que a transformavam em produtos industrializados, posteriormente revendidos aos endinheirados da borracha por um valor de mercado certamente maior.
A despeito de alguns símbolos manejados pela produção serem exagerados, salta aos olhos para os outros brasileiros a representação de um quadro de coisas muitas vezes reproduzido oralmente na sociedade amazonense. E que quadro é esse? É o do fausto econômico, do esbanjamento, do orgulho pela abundância da riqueza que circulava pelas ruas de nossa capital, mas que era obtida através do suado (e mal pago) trabalho de seringueiros espalhados pelo interior do estado. Um livro do português Ferreira de Castro de título “A selva” apresenta ao leitor a sofrida vida dos trabalhadores nos seringais.
Uma cena imaginária me acompanha desde a meninice: um rico coronel da borracha a enrolar seu tabaco com uma nota de cem mil réis. Como amazonense, nem precisei de livros para chegar a essa informação. Provavelmente, uma de minhas avós me narrou a história chegada a ela já mediada por um outro antepassado.
O que eu quero propor à análise dos leitores aqui é o seguinte: até que ponto a sociedade manauara é diferente do que foi nos tempos da borracha? Sem dúvida, os tempos do capitalismo são outros: hoje em dia um dono de um seringal não seria agraciado por tamanho poderio econômico. Certamente, ficaria acabrunhado no provincianismo de suas terras. O esbanjamento que acometeu nossos coronéis na virada do século XIX pro século XX se inseria num quadro ideológico que pintava as cores das vidas dos dândis e bon vivants. Esbanjar era um símbolo de riqueza e prestígio. Hoje, o esbanjamento já não é bem visto ou valorizado pela elite econômica.
É através dos símbolos que os indivíduos podem comunicar à sociedade o que são. Numa sociedade em que a mobilidade social é existente como na brasileira, os símbolos ganham forma que vão desde a vestimenta trajada até o celular usado. E se vêem espalhados pelas ruas da cidade tais símbolos em movimento nas mãos ou nos corpos dos manauaras. Em termos gerais, no capitalismo é melhor quem tem mais. E nisso Manaus não mudou, bem como grande parte do mundo.
Há, entretanto, um símbolo também capaz de conferir prestígio, que proporciona o acesso ao conhecimento. Tal símbolo, mais valorizado em outras partes do mundo, proporciona a quem ganha intimidade com ele a possibilidade de vislumbrar outras realidades possíveis. Mostra a história que as sociedades mais íntimas ao conhecimento e à educação conseguiram resolver seus problemas e avançar muito mais que as que não o valorizam. O símbolo, que na verdade é um instrumento, do qual trato é o livro. Se víssemos, e eu espero que um dia chegaremos a isso, tantos livros pela cidade quanto celulares e automóveis, mais rapidamente teríamos mais ciência da nossa contraditória sociedade e avançaríamos rumo a um melhor mundo.
O que quero dizer, no fundo, é que quanto à sociedade amazonense mudaram algumas formas simbólicas, mas a essência da valorização de símbolos da cultura material ainda é muito forte.
Torço para que isso mude: só de outra forma é possível transformar um pouco a realidade.
É Isso!
Abaixo o texto:
Manaus: ontem, hoje e amanhã
Nos últimos tempos, o Brasil tem sido apresentado a um momento histórico da sociedade amazonense, através de uma produção televisiva de uma das emissoras de TV com alcance nacional. Tal momento se refere ao ápice do ciclo econômico da borracha, que engendrou o acúmulo de imensas fortunas pelos proprietários dos grandes seringais. Evidente que a mais fortuna ainda tiveram acesso os importadores da borracha que a transformavam em produtos industrializados, posteriormente revendidos aos endinheirados da borracha por um valor de mercado certamente maior.
A despeito de alguns símbolos manejados pela produção serem exagerados, salta aos olhos para os outros brasileiros a representação de um quadro de coisas muitas vezes reproduzido oralmente na sociedade amazonense. E que quadro é esse? É o do fausto econômico, do esbanjamento, do orgulho pela abundância da riqueza que circulava pelas ruas de nossa capital, mas que era obtida através do suado (e mal pago) trabalho de seringueiros espalhados pelo interior do estado. Um livro do português Ferreira de Castro de título “A selva” apresenta ao leitor a sofrida vida dos trabalhadores nos seringais.
Uma cena imaginária me acompanha desde a meninice: um rico coronel da borracha a enrolar seu tabaco com uma nota de cem mil réis. Como amazonense, nem precisei de livros para chegar a essa informação. Provavelmente, uma de minhas avós me narrou a história chegada a ela já mediada por um outro antepassado.
O que eu quero propor à análise dos leitores aqui é o seguinte: até que ponto a sociedade manauara é diferente do que foi nos tempos da borracha? Sem dúvida, os tempos do capitalismo são outros: hoje em dia um dono de um seringal não seria agraciado por tamanho poderio econômico. Certamente, ficaria acabrunhado no provincianismo de suas terras. O esbanjamento que acometeu nossos coronéis na virada do século XIX pro século XX se inseria num quadro ideológico que pintava as cores das vidas dos dândis e bon vivants. Esbanjar era um símbolo de riqueza e prestígio. Hoje, o esbanjamento já não é bem visto ou valorizado pela elite econômica.
É através dos símbolos que os indivíduos podem comunicar à sociedade o que são. Numa sociedade em que a mobilidade social é existente como na brasileira, os símbolos ganham forma que vão desde a vestimenta trajada até o celular usado. E se vêem espalhados pelas ruas da cidade tais símbolos em movimento nas mãos ou nos corpos dos manauaras. Em termos gerais, no capitalismo é melhor quem tem mais. E nisso Manaus não mudou, bem como grande parte do mundo.
Há, entretanto, um símbolo também capaz de conferir prestígio, que proporciona o acesso ao conhecimento. Tal símbolo, mais valorizado em outras partes do mundo, proporciona a quem ganha intimidade com ele a possibilidade de vislumbrar outras realidades possíveis. Mostra a história que as sociedades mais íntimas ao conhecimento e à educação conseguiram resolver seus problemas e avançar muito mais que as que não o valorizam. O símbolo, que na verdade é um instrumento, do qual trato é o livro. Se víssemos, e eu espero que um dia chegaremos a isso, tantos livros pela cidade quanto celulares e automóveis, mais rapidamente teríamos mais ciência da nossa contraditória sociedade e avançaríamos rumo a um melhor mundo.
sábado, 20 de janeiro de 2007
do discurso sobre o filho-da-puta
Vivemos num mundo em que a diversidade é cada vez mais ameaçada por um tipo de exaltação massiva de um modelo de vida, em que ganha importância o "ter" e perde o "ser". Por vezes, a idéia de cidadania política já se vê substituída por um tipo de cidadania do consumo. Só fala quem compra, só escreve quem paga! E mais e mais, o mundo vai ficando silencioso.
Tenho lido um livro publicado pela editora Achiamé. Chama-se "Discurso sobre o filho-da-puta" que, de uma forma alternativa, questiona o processo de reprodução do cada vez mais complicado mundo em que vivemos.
Publico abaixo um pequeno trecho do livro de Alberto Pimenta:
"filhos-da-puta vocacionados para fazer e filhos-da-puta vocacionados para não deixar fazer, e estes (desde já se pode afirmá-lo) são os dois tipos universais e eternos de filho-da-puta. Há, naturalmente, subtipos e especializações funcionais com funções especiais: modos de fazer e de não deixar fazer, de fingir fazer e deixar fazer, ou de fingir não fazer e não deixar fazer; no entanto, quer os dois tipos, quer os vários subtipos de filhos-da-puta, todos eles são primeiramente e acima de tudo filhos-da-puta e disso todos estão bem cônscios. É por isso que nem sempre podemos e devemos delimitar rigidamente estes tipos, dado que eles são flexíveis e constantemente se entrecruzam e interpenetram e, sobretudo, constantemente se ajudam e entreajudam. (...) Todo o filho-da-puta especializado em fazer faz tudo o que possa contribuir para que a vida não corra despreocupadamente; todo o filho-da-puta especializado em não deixar fazer não deixa fazer nada que possa contribuir para que a vida corra despreocupadamente. (...) É longa, muito longa, a lista do que pode fazer um filho-da-puta especializado em fazer: desde normas e adendos e emendas de formas, até decretos oblíquos e retos , e despachos discretos, não há nada, não há praticamante nada que um filho-da-puta especializado em fazer não possa fazer."
Tenho lido um livro publicado pela editora Achiamé. Chama-se "Discurso sobre o filho-da-puta" que, de uma forma alternativa, questiona o processo de reprodução do cada vez mais complicado mundo em que vivemos.
Publico abaixo um pequeno trecho do livro de Alberto Pimenta:
"filhos-da-puta vocacionados para fazer e filhos-da-puta vocacionados para não deixar fazer, e estes (desde já se pode afirmá-lo) são os dois tipos universais e eternos de filho-da-puta. Há, naturalmente, subtipos e especializações funcionais com funções especiais: modos de fazer e de não deixar fazer, de fingir fazer e deixar fazer, ou de fingir não fazer e não deixar fazer; no entanto, quer os dois tipos, quer os vários subtipos de filhos-da-puta, todos eles são primeiramente e acima de tudo filhos-da-puta e disso todos estão bem cônscios. É por isso que nem sempre podemos e devemos delimitar rigidamente estes tipos, dado que eles são flexíveis e constantemente se entrecruzam e interpenetram e, sobretudo, constantemente se ajudam e entreajudam. (...) Todo o filho-da-puta especializado em fazer faz tudo o que possa contribuir para que a vida não corra despreocupadamente; todo o filho-da-puta especializado em não deixar fazer não deixa fazer nada que possa contribuir para que a vida corra despreocupadamente. (...) É longa, muito longa, a lista do que pode fazer um filho-da-puta especializado em fazer: desde normas e adendos e emendas de formas, até decretos oblíquos e retos , e despachos discretos, não há nada, não há praticamante nada que um filho-da-puta especializado em fazer não possa fazer."
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do discurso sobre o fliho-da-puta
sábado, 13 de janeiro de 2007
mudanças
Não procurei me informar muito, mas parece que o blogger foi comprado pelo Google.
Isso não mudaria nada a política desse blog. O que aconteceu , entretanto, é que meu último post não tinha sido publicado até hoje. Tinha postado em 09 de janeiro.
Cheguei à conclusão que devia entrar nesse novo blogger. Por isso, até o endereço do blog mudou: passou a ser joaodaega.blogspot.com
Isso, de certa forma, foi bom. Pude retirar alguns posts dos quais não gostava tanto, ou aqueles grandes demais. Assim, retirei uma entrevista do professor Renato Lessa publicada no jornal "Valor Econômico" e um texto de um sociólogo argentino sobre o polonês Bauman.
Para não perder totalmente a linha temporal do blog, revelei ao lado dos títulos de cada post a data de sua publicação no antigo blog. É isso aí!!
Abraço
Isso não mudaria nada a política desse blog. O que aconteceu , entretanto, é que meu último post não tinha sido publicado até hoje. Tinha postado em 09 de janeiro.
Cheguei à conclusão que devia entrar nesse novo blogger. Por isso, até o endereço do blog mudou: passou a ser joaodaega.blogspot.com
Isso, de certa forma, foi bom. Pude retirar alguns posts dos quais não gostava tanto, ou aqueles grandes demais. Assim, retirei uma entrevista do professor Renato Lessa publicada no jornal "Valor Econômico" e um texto de um sociólogo argentino sobre o polonês Bauman.
Para não perder totalmente a linha temporal do blog, revelei ao lado dos títulos de cada post a data de sua publicação no antigo blog. É isso aí!!
Abraço
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